quarta-feira, junho 15, 2005

PRA QUÊ???

Há dez anos, quando vim para Lisboa, conheci um colega de curso do meu companheiro. O Zé Manel. Era mais novo que nós mas demo-nos bastante bem.
A namorada era um bocado difícil de aturar com a manía das modas, era tudo muito fashion, muito lindo, etc. Coisas para as quais eu não tenho paciência, mas lá fomos aguentando.
Ele era muito porreiro. Inscrevemo-nos os dois no ginásio. Eles chegaram a ir connosco passar uns dias a casa dos meus pais, etc...
Entretanto, passados anos de amizade, a empresa do meu companheiro contratou o Zé Manel e ele foi trabalhar com ele para a mesma agência. Tudo correu bem até que se descobriu que ele estava a tentar passar por cima do meu companheiro e ficar-lhe com o lugar de chefe de balcão.
Afinal, quando era para lutar pelo poder, o Zé Manel pisava quem quer que fosse e as manias da grandeza, riqueza, estatuto, que era características da namorada, também era as metas dele.
Eu achava estranho ele aguentar as merdices da namorada pois até me parecia uma pessoa simples. Mas não. Era uma daquelas pessoas a quem a perspectiva de "ser alguém" modificou...
O meu companheiro despediu-se da empresa e deixamo-nos de nos falar. Nunca mais o vi, nem a ele nem à namorada.
Soubémos hoje que morreu com um tumor no cérebro. Tinha 32 anos.
O meu companheiro, com todos os colegas de curso, foram prestar-lhe uma última homenagem.
Ficámos a saber que foi diagnosticada esquizofrenia à namorada, que terminaram uma relação de 10 anos, que ele já tinha outra namorada e que iam casar em Outubro.
Desde que lhe descobriram o tumor os médicos deram-lhe 2 meses de vida. Durou 1. Entrou em coma na Segunda Feira e desligaram ontem a máquina.
Eu estou um bocado em choque. Não tenho pensado n'outra coisa durante todo o dia. Estou dividido pela raiva que tinha ao filho da mãe pela traição ao amigo e colega (o meu companheiro) e pela pena do "antigo" Zé Manel, com quem passei muitos fins de tarde no ginásio.
Ora penso - Coitado do Zé, com 32 anos!... Ora penso - Teve o que mereceu!
Posso parecer cruel mas não consigo deixar de pensar assim.
Quem me faz alguma, eu não consigo esquecer! Foram 2 anos de desemprego e dificuldades que passámos por causa dele.
E depois não me consigo perdoar por pensar assim...
Valerão a pena as merdas que se fazem por aí?... Pra quê?!....

9 comentários:

Pequenos Nadas disse...

Eu acho que é a luta entre o teu lado racional e o teu lado emocional. É legítimo a ambivalência que sentes, seria hipócrita da tua parte optares pelo racional e pelo politicamente correcto.

Draco disse...

Pois, mas está-me a ser difícil gerir os pensamentos sobre este assunto.

Parece que se pensar o que não quero - porque foi uma morte - me torno numa má pessoa...

Enfim, hei-de lá chegar!

Justanotherguy disse...

O ressentimento é uma emoção perfeitamente normal, o facto de a pessoa para que direccionas essa emoção estar morta não muda muito o cenário pois não?

fish_n_spice disse...

O que estás a sentir é mais ou menos aquilo que criticaste em relação à morte do Álvaro Cunhal...
Não é por ter morrido que passou a ser boa pessoa. O que conta, são os actos da pessoa viva...

Abraço

moon between golden stars disse...

A vida tem destas coisas... faz-nos ter sentimentos ambíguos pela mesma pessoa, por vezes até no mesmo momento.. è claro que é legítimo da tua parte pensar assim...
Eu acho que não vale a pena não ser honesto com a vida e com os que nos rodeiam... agora se calhar é por isso que não saio da "cepa torta", e que há muita gente à minha volta a subir na vida...
No entanto, continuo a achar que não vale a pena...

Um abraço

Draco disse...

Pois, infelizmente a ganância de vencer e ser alguém modifica muita gente.

Coisas às quais eu não dou importãncia!

Pena que só em situações como esta as pessoas cheguem a certas conclusões.

Dark Electronic disse...

ironia do destino huh?

fish_n_spice disse...

Ontem, em conversa em casa, os meus pais começaranm a falar de alguém com a mesma tendência a subir à custa dos outros, a dar importância a coisas de que não precisamos para viver e que também tinha morrido.

Resumo, por parte do meu pai: "quem tudo quer, tudo perde".

Lembrei-me imediatamente deste teu post.

Abraço

Draco disse...

Sim, os nossos pais são uns sábios...
Para a minha mãe é o tal castigo do Deus dela...

;-)