sexta-feira, janeiro 27, 2006

Crescer

Há muito tempo que não me morria alguém próximo. Minto, ainda o ano passado morreu o meu primo Armando e uma grande amiga da mãe.
Vou começar de novo.
Eu sempre fui averso a funerais. Consegui sempre escapar, com a desculpa de que queria guardar uma recordação da memória da pessoa viva, que me fazia impressão, com o trabalho. Enfim, na minha já longa vida, acho que fui a dois ou três funerais e, mesmo assim nunca tinha visto nenhum cadáver, nunca tinha ido a um velório, nem tinha assistido ao acto de enterrar alguém.
Com a morte do meu avô, tudo mudou.
Já estava há alguns dias no hospital e já nos tinham avisado que era bastante grave, mais do que podíamos imaginar, mas no entanto pensa-se sempre que são coisas da idade. Não se esperava que o meu avô fosse para o hospital para morrer.
Talvez por isso não cheguei a ir vê-lo ao hospital em Santiago do Cacém. A última vez que o vi vivo, foi no último Natal.
O meu pai estava desgastado, envelheceu com todo este processo de ver o pai definhar. Foi-se um bocado abaixo. A minha mãe apoiou-o mas no fim os nervos e o cansaço também se apoderaram dela. Precisaram de nós. De mim e do meu irmão.
O meu avô morreu às 19:20 de Domingo e os meus pais foram informados pelo hospital perto das 22h. Porque não valia a pena incomodar ninguém durante a noite, só avisaram toda a gente na manhã seguinte. Perto das oito da manhã de Segunda Feira quem me telefonou a mim foi o meu irmão.
Fiquei em estado de choque. É muito difícil para mim chorar nestas situações e geralmente vou-me abaixo depois de tudo passar. Não sei se foi o facto de saber que era importante para o meu pai que nós estivéssemos lá, mas nem coloquei a hipotese de não ir. Tremi que nem varas verdes só de pensar que me podiam fazer ver o corpo, se teria, como neto, que carregar o caixão... Montes de idéias me vieram à cabeça e os nervos são incontroláveis.
Tratei de arranjar maneira de deixar as coisas mais ou menos tratadas na loja e fui, nessa manhã, com o meu irmão e cunhada, para baixo. Os meus pais pediram para o meu companheiro não ir o que me deixou um amargo de boca, mas ele disse que compreendia o ponto de vista do meu pai pois eram alturas muito emotivas. Hoje faz algum sentido pois a emoção é complicada de controlar e com ele lá teria sempre buscado o seu apoio. Enfim...
Fomos ter com o meu pai e mais alguns membros da família à morgue do hospital. O meu avô já estava vestido e no caixão e o meu pai estava à nossa espera para o vermos.
"Queres ver o avô?" - Perguntou-me.
"Sim, claro..." - Respondi sabendo que era esta a resposta que o meu pai queria ouvir.
E assim vi o meu avô. Morto. Foi um choque de poucos segundos pois só o notei mais envelhecido e com ar de doente. Nada de especial... Até fiquei admirado com a minha reacção e o meu medo dissipou-se.
Ao chegar-mos à igreja, já em Milfontes, fui a pé buscar a minha avó a casa, que era relativamente perto. Estava lavada em lágrimas, o que não é difícil para ela pois emociona-se muito facilmente, mas neste caso tinha mais do que razão.
"Já perdeste o teu avô!..." - foi o que me disse quando me viu. - "Nunca pensei que ele morresse tão depressa!". Já não me lembro o que lhe respondi. Nada a podia animar e dei-lhe só algum carinho. Também ela me pareceu uns anos mais velha desde o Natal.
O que mais me emocionou e o que me fez chorar, foi ver a minha avó chegar ao caixão e ver, pela primeira vez, o marido morto. Foram 58 anos de casados e de partilha de tudo. Sei que uma parte da minha avó morreu também ali. Parece que agora, o que cá está a fazer não é viver, é esperar, também ela, pela morte. Foi muito triste.
Tudo o que se seguiu acho que vou recordar para toda a minha vida pois foi vivido com intensidade e pela primeira vez. O "participar" nas coisas fez-me crescer um pouco e ver a morte e todo o ritual á volta dos serviços fúnebres de outra maneira. Dei por mim a pensar em como eu gostava que fosse o meu funeral, coisa estranha.
O meu avô tinha seis irmãs, uma já falecida, e dois irmãos. Todos casados e com filhos, netos, bisnetos, etc. Junta-se a família do lado da minha mãe que tem onze irmãos e mais amigos de uns e de outros e podem ver a quantidade de gente que foi, que me veio dar os pêsames, que eu não via há anos, que gostou de me ver, que quis falar comigo, enfim, para mim, um verdadeiro bicho do mato, esta foi uma passagem aterradora, mas com a qual, como tudo, nos habituamos a lidar. Tratei de flores para o funeral, ajudei os meus pais, apresentei as pessoas que não se conheciam, acompanhei no velório, conversei com a minha avó. Fiz muitas coisas que sempre me fizeram confusão e que me pareceram agora naturais.
Não gostei também de algumas coisas e, mesmo compreendendo que as pessoas tenham reacções várias à morte, não gostei de ver quase a "festa" que foi o velório. Não gostei de ver as pessoas a rirem despreocupadas a poucos metros do caixão onde estava o meu avô morto. Pareceu-me mórbido. O meu pai também não gostou, mas numa família grande, para descomprimir conversa-se e passado um tempo estava muita gente numa alegre cavaqueira. É difícil a família toda se juntar sem ser numa altura assim. Quando foram buscar chá e bolinhos, perto da meia noite, foi a minha hora de me retirar. Não percebo o porquê da maratona de ficarem todos a velar o morto pela madrugada fora. As pessoas ficam mortas de cansaço e o benefício não é nenhum.
Na manhã seguinte, e para encurtar este testamento, as emoções, talvez pelo cansaço, estiveram a rubro e foi preciso acalmar muita gente. Os meus pais estavam muito cansados, verdadeiramente tristes e emocionados. Ocupei-me da minha mãe e não a larguei um minuto. Estava num estado de nervos como poucas vezes a vi. Foi assim, juntos, que assistimos ao serviço fúnebre e ao enterro. Nós os quatro, a minha cunhada e dois primos fomos os últimos a sair do cemitério, antes um local que me assustava e, depois de tudo, só um lugar onde as pessoas "repousam". Visitei a campa do meu primo, da grande amiga da minha mãe e voltámos para casa.
Porque não quis massacrar a minha mãe a ter de fazer o almoço, sugeri irmos almoçar fora. A idéia agradou. Fomos buscar a minha avó e almoçámos todos num restaurante da vila.
A tarde, até ao regresso a Lisboa, foi passada a ler e a dormir. Os meus pais deitaram-se, o meu irmão deitou-se e eu acabei por adormecer também.
A vida continua e o Joquinito, como nós chamavamos ao meu avô, já não sofre mais, e estará sempre nas nossas memórias e nos nossos corações.

1 comentário:

luciano cavaca disse...

Meus sinceros pesames para si e para toda a sua familia.