domingo, setembro 17, 2006

Até gostava de acreditar...

Não sei se já perceberam mas não tenho nenhuma religião. Não acredito em nenhum deus. Ou melhor, não acredito que exista um deus, ou dois ou três.Acredito em biologia e na evolução das espécies. Não acredito na vida após a morte física. Não acredito em almas nem em anjos. Mas gostava de acreditar. Assim, nos momentos mais difíceis, tinha algo a que me agarrar.

Não sei se leram, mas há uns dias perdi um grande amigo. O meu cão Igor. Eu sei que para muitos é um cão, mas para mim, e por mais ridículo que possa parecer, era como um filho. Dou este exemplo para as pessoas perceberem o quanto me custou. A maior parte pensa que eu sou maluco, mas muita gente percebe e como tenho uma loja de animais, convivo com muita gente que se dedica aos animais como eu.

Tudo isto para dizer que estive uns dias muito triste e desanimado com a vida pela injustiça e estupidez da morte do Igor. Depois, com o passar dos dias a tristeza vai passando ao regresso à realidade. Não há nada que se possa fazer contra a morte e aquela morte teve que acontecer como muitas acontecem. O acaso e o destino juntaram-se tornando aquele o momento. E para o pequeno Igor, tudo terminou ali.

Foi engraçada a reacção das várias pessoas, crentes das mais diversas religiões, ao facto de eu andar triste. Umas perguntaram-me como é que eu tinha tido coragem de pegar no cachorro morto ao colo e leva-lo para casa. Como é que eu não teria coragem. Era o meu Igor que estava ali a morrer-me nos braços. Ao menos que morresse sentindo-se acarinhado.
O meu companheiro ainda me perguntou se eu queria enterra-lo no cemitério dos cães no Jardim Zoológico mas eu não quis. Não tem grande significado ir a um cemitério para lembrar a memória do Igor. Ele nunca lá tinha estado, aquele sítio não lhe dizia nada. Ele será sempre lembrado, em casa, sem a necessidade do corpo estar presente. O Igor foi levado para o canil municipal para ser cremado.
Depois vieram as velhotas que diáriamente passavam pela loja para lhe darem mimos. Foi comovente ver como um cão pode ser importante para as pessoas e como muitas sairam de lá a chorar. Uma até me disse: "Deixe estar que quando morrer tem o seu cãosito lá em cima à sua espera". É uma bonita imagem mas infelizmente não consigo acreditar.

É engraçado como o ser humano arranja subterfúgios para justificar o medo da morte e a finalidade das suas vidas. A maior parte não percebe que, tudo o que temos é o tempo que estamos vivos. Depois o que podemos deixar é a nossa memória, o nosso trabalho. Podemos 'continuar a viver' só na lembrança dos outros.

É facilmente justificavel o aparecimento das várias religiões, cultos e crenças. Quase tudo parte do medo do ser humano a que não sobreviva. Todos lutamos pelo mesmo. Para cá estarmos o máximo de tempo possível e por aproveitarmos esse tempo para viver a vida. Para quê? Para isso mesmo. Para VIVERMOS.
As teorias religiosas, paranormais, futuristas, lendárias, são criadas pelos seres humanos para que as vidas tenham algum sentido. Porque precisam de dar algum significado à vida. Não conseguem ver que o significado da vida é vivê-la. Aproveitar tudo. Arriscar. Experimentar. Aprender o máximo. Viver intensamente.

Infelizmente quem percebe isso pode depois sentir-se um bocado decepcionado com a vida. Por exemplo, quando perdemos alguém sabemos que não a vamos encontrar no além porque não existe além. Não existe céu nem Inferno, não nos tornamos anjos nem ardemos nas chamas das trevas. Quando nos morre alguém, não vale a pena arranjarmos desculpas. A mais hilariante que ouvi já várias vezes, especialmente quando morre alguém novo, é que Deus o chamou para ao pé dele... E porquê? - Pergunto eu - Não tinha já a companhia dos milhões de pessoas que morreram desde que os seres humanos apareceram? Existe uma cena no filme STEEL MAGNOLIAS sobre a raiva de uma mãe que perde uma filha nova que reflecte muito bem a revolta que podemos sentir com DEUS quando 'nos leva' alguém querido.

Por isso, a mim que não acredito em nada, restou-me ficar com a dor de ter perdido o meu Igor e de saber que para o meu melhor amigo tudo acabou naquele momento. Deixa-nos horrivelmente incapacitados para qualquer coisa e por momentos a frase feita "A vida continua" parece um bocado difícil de engolir.

Resta-nos viver das lembranças!

1 comentário:

Patrícia disse...

Será que Religião e Ciência são assim tão incompatíveis? Para qualquer pessoa minimamente informada a ciência é inquestionável. O resto chama-se Fé.
E a Fé é aquilo a que muitas pessoas se agarram qdo perdem alguém que lhes é querido. Não existe isso de se arranjar “desculpas” qdo alguém morre. Existe tristeza, solidão, desespero. E se a FÉ pode ajudar, qual é o problema?
E por vezes, qdo durante anos e anos se vê apenas sofrimento e dor que inevitavelmente termina na morte é mais difícil acreditar que o significado da vida é “viver” do que acreditar que existe “mais qualquer coisa” (seja isso o que for)!
A ti consideram-te “maluco” por chorares a morte de um cão. Na realidade só o faz quem não é capaz, ou simplesmente não quer perceber a ligação que dois seres, um humano e um animal, conseguem forjar. E tu consideras malucos os que acreditam que há vida para além da morte. No fundo todos questionamos aqueles cuja crença, seja religiosa ou cientifica, é diferente da nossa.
Mas lembra-te, a Fé, por definição, não se explica nem se prova. É por isso facilmente acatável.
bjs