sexta-feira, julho 31, 2009

As partidas do cérebro

Todo este caso da saúde da minha mãe se tem revelado - agora que o perigo já passou - engraçado de observar como a vida se desenrola quando algo nos tiram da nossa rotina diária.
A minha mãe foi operada há dois dias. A operação correu bem, o tumor, que já estava grandito, foi retirado e, segundo o médico, agora é só passar a fase da recuperação e depois tudo voltará a ser como sempre. Entretanto por se situar no lado esquerdo do cérebro, o crescimento do tumor estava a afectar a memória relacionada com a fala. Esquecia-se das palavras. Queria dizer as coisas mas não sabia como. Uma situação exasperante para ela. O médico avisou-nos que, logo após a operação, poderia haver ainda uma regressão. Assim foi, se antes dizia duas ou três palavras numa frase, após a cirurgia ficou com um dialeto de uma palavra ou meias palavras o que a deixou muito ansiosa. A juntar a essa dificuldade, os membros do lado direito também ficaram afectados. Disse-nos o médico que o cérebro não assumia o lado direito. Se a minha mãe visse o braço, conseguia mexe-lo, se não o visse, o cérebro não assumia que tinha braço e não o mexia, ou movia o esquerdo quando lhe pediamos para mover o direito.
Passadas 24 horas, já se notava alguma melhoria. Algumas frases quase completas e ditas devagarinho já eram formuladas e melhorou os movimentos dos membros direitos. Hoje não vejo grandes avanços, mas a recuperação é lenta (baby steps!!). É engraçado quando podemos ser enganados pelo nosso próprio cérebro e como tudo funciona ligado aquele orgão vital. Agora, tudo voltará à normalidade quando o cérebro que estava comprimido devido ao crescimento do meningioma, voltar a ocupar o seu espaço.
Em relação à parte humana. Das pessoas, da minha família, acho que, em situação de limite e de ansiedade, se acentuam as características e os 'defeitos' de cada um. Eu sempre disse que gosto das pessoas quando elas têm problemas. Quando as coisas começam a melhorar e deixam de precisar uns dos outros, a solideriedade esfuma-se e o egoísmo, que caracteriza a sociedade e as famílias de hoje, prevalece.
Quanto a mim, esta experiência está a enriquecer-me. A preparar-me para outras coisas, outras experiências. Estes dias em que nos familiarizamos com o hospital, neste caso, CUF Infanto Santo, foram muito curiosos. A minha opinião, no entanto, não mudou - O melhor, é mesmo não precisarmos dos hospitais!
Outra coisa que também se manteve inalterada foi a minha ligação com a minha mãe. É uma coisa inexplicável. Muitas vezes gostava de ser como algumas espécies em que os progenitores abandonam os filhos pouco tempo depois de darem à luz ou quando estão prontos para sobreviver na 'selva'. Mas não, essas são espécies mais evoluídas que os seres humanos que ficam com laços estranhamente fortes ligados aos progenitores até ao fim da vida (senão para sempre).
Uma coisa curiosa que aconteceu foi que eu, quando me sinto ansioso ou atrapalhado com qualquer coisa, ligo sempre à minha mãe. Mesmo que não lhe fale sobre os problemas, só o facto de ouvir a sua voz me acalma e me empurra prá frente. Ora durante o stress da espera da operação, que durou umas longas três horas, várias vezes e instintivamente tinha o impulso de lhe ligar. Só depois, já com o telemovel na mão, me lembrava que desta vez não lhe podia ligar porque era ela que estava a ser operada.
Enfim, são considerações de alguém que está feliz por lhe terem trazido a mãe de volta.
Ainda me faz muita falta!...

1 comentário:

pinguim disse...

Este texto revela uma extrema sensibilidade e um apurado amor filial; revi-me nalgumas situações parecidas e que recentemente levaram ao desaparecimento de uma irmã minha, mas não há comparações possíveis, clinicamente, já que ela não chegou a sair do recobro de uma primeira intervenção e depois manteve-se em estado vegetativo durante intermináveis semanas.
Folgo saber que no caso da tua Mãe a evolução esteja a ser positiva (necessariamente lenta).
Abraço e as melhoras completas.